quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Alético x Goiás no Serra dourada pela Sul-americana

"Não há nome intranscendente e repito: qualquer nome insinua um vaticínio. Todo o destino de Napoleão Bonaparte está no seu cartão de visitas. Ao passo que um J. B. Martins da Fonseca não tem nenhuma destino especial e vou mais longe: não tem destino. Quando baptizaram William Shakespeare, o padre poderia perguntar-lhe: "Como vão tuas Obras completas?". No simples "William Shakespeare" estava implícita a música verbal do seu teatro.

Fiz essa pequena introdução para chegar ao nosso presidente. Quando começou o jogo de candidaturas, disse eu: "Ganha esse, pelo nome e pela cara". Não é impunemente que um homem se chama Emílio Garrastazu Médici. Tiremos o Emílio e fica Garrastazu. Tiremos o Garrastazu e ficará o Médici. Bem sei que essa meditação sobre o nome pode parecer arbitrária e até delirante. Não importa, nada importa. Depois vi a sua fotografia. Repeti, na redacção, para todo o mundo ouvir: "É esse o presidente". Ora, numa redacção há sempre uns três ou quatro sarcásticos. Um deles perguntou: "Só pelo nome?". Respondi: "Pelo nome e pela cara".

Amigos, inicio este texto com esse trecho de uma belíssima crônica do mestre Nelson Rodrigues. Ontem na partida entre Goiás e Atlético no estádio Serra Dourada ficou comprovada a validade da tese sustentada pelo nosso grande cronista.

Quando o Celso Roth mexeu na equipe eu senti todo o destino fúnebre do Atlético. Primeiro com a entrada do Sheslon. Um jogador com esse nome não pode ter um futuro brilhante, e repito, não pode ter futuro. Fosse eu o presidente do Atlético contrataria um marketeiro apenas para escolher os nomes dos jogadores que saem da base. Sim, caros leitores, vivemos na era do Marketing. Bem sabemos que antes de uma empresa lançar um produto no mercado engendra sunuosas pesquisas para batizá-lo com um nome promocional. O Mancini, atacante da Inter, quando chegou ao time profissional do Atlético se chamava "Mansinho". O técnico na época, Evaldo Cruz disse de forma inapelável: "não tem nome de jogador". Recomendou uma simples troca: de Mansinho para Mancini. O resultado todos conhecemos.

Porém foi na segunda substitução que eu senti que aquela noite seria lúgubre para a massa alvi-negra. Chiquinho. Não há em toda a história do futebol o registro de um gol marcado por um Chiquinho. Quando ele entrou eu disse aos meus amigos: o jogo está perdido. E tal como o Nelson Rodrgues, também fulminei o veredito: "pelo nome e pela cara." Não basta um nome imponente, o jogador também deve ter uma postura de atleta. Só nascendo outra vez (e com outro nome) para o Chiquinho ter condições de ser jogador.

Além desses dois irremediáveis pernas-de-pau, diria até, pernas-de-pau desde o batismo, também não podemos deixar incólume a atuação do Renan Oliveira. Bem sabemos que o jovem atleta ou é um Van Basten ou um idiota de babar na gravata. O "Renanzinho", quando surgiu no ano passado, gerou na torcida atleticana uma expectativa hedionda. Parecia que o nosso milenar problema com a camisa 10 estava resolvido para todo o sempre. Quem não se empolgou com aquela brilhante atuação contra o Flamengo no estádio Mário Filho? Simplesmente genial.

Porém o garoto a cada dia demonstra-se muito mais "idiota de babar na gravata" que "Van Basten". Bem sabmos que para ser jogador do Atlético não é necessário muita qualidade técnica. Desde sempre somos marcados pela raça, pela disposição, pelo élan dos nossos jogadores. Aliás, o mascote "Galo" foi escolhido justamente como simbolo da vontade, da luta até a morte. E é inaceitável a pusilânime inapetência do Renan Oliveira. Joga como se estivesse cumprindo uma obrigação, tão abatido como um condenado à morte que caminha agonicamente para a forca. Não tem sangue, e a ausência do sangue inviabiliza a sua permanência no Atlético. Seu ciclo acabou. Que tenha sorte em outro lugar.

Porém não poderia encerrar este texto sem tecer loas ao CRAQUE Júnior. Que habilidade! Em toda a sua vida não há o registro de um passe errado, joga aos 36 anos como se tivesse 20, ou melhor pois conta com a experiência e qualidade que apenas a idade pode trazer. Jogou ontem com o furor de quem disputa uma final de libertadores, não obstante à pouca importância que o Atlético deu à sul-americana. Em sua catedrática atuação mostrou-se infinitamente superior ao Evandro, ao Renan Oliveira e a qualquer outro jogador deste time do Atlético, do passado, do presente ou do futuro. Foi fantástico ver o seu estilo plácido e sereno, que com passes precisos desmonta a defesa adversária, por mais bem montada que ela esteja, mesmo que ela seja uma bastilha intransponível. E o gol? De uma genialidade profunda. Com um toque fleumático por cima do goleiro mostrou ao mundo que quem foi rei nunca perde a majestade. Pagou o ingresso.